{"id":15315,"date":"2021-07-30T21:19:01","date_gmt":"2021-07-31T00:19:01","guid":{"rendered":"http:\/\/homacdhe.com\/?p=15315"},"modified":"2025-06-23T12:48:06","modified_gmt":"2025-06-23T15:48:06","slug":"o-embate-entre-empresas-e-os-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homacdhe.com\/index.php\/2021\/07\/30\/o-embate-entre-empresas-e-os-direitos-humanos\/","title":{"rendered":"O embate entre Empresas e os Direitos Humanos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dando seguimento \u00e0 s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es sobre aspectos gerais de Direitos Humanos e Empresas, no post de hoje vamos entender agora o papel dos <\/span><a href=\"http:\/\/homacdhe.com\/index.php\/2020\/10\/06\/os-principios-orientadores-sobre-empresas-e-direitos-humanos-da-onu\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Princ\u00edpios Orientadores<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> em rela\u00e7\u00e3o ao tema de Empresas e Direitos Humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como j\u00e1 observamos, n\u00f3s tivemos alguns momentos nos quais a ONU reage \u00e0 demanda da sociedade civil e diversos atores pol\u00edticos buscam uma maior responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas nos casos de viola\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1, dessa forma, um embate entre aqueles que defendem um conjunto normas volunt\u00e1rias e os que defendem as normas vinculantes. A for\u00e7a da demanda por normas volunt\u00e1rias gerou como produto, ao final dos dois mandatos do professor John Ruggie, os Princ\u00edpios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, aprovados por consenso no Conselho de Direitos Humanos das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 2011. Mas, por que esses princ\u00edpios est\u00e3o at\u00e9 hoje no centro da discuss\u00e3o sobre a regulamenta\u00e7\u00e3o de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os Princ\u00edpios Orientadores consolidam a ret\u00f3rica cujo <\/span><b>Estado <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 o verdadeiro<\/span><b> respons\u00e1vel<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> pelo provimento dos Direitos Humanos e, portanto, <\/span><b>apenas o Estado pode ser acusado de viola\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Nesse caso, a empresa tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel, mas apenas naquilo que o Estado lhe impuser enquanto responsabilidade. N\u00e3o existe, assim, uma responsabilidade ou uma obriga\u00e7\u00e3o efetiva e direta das empresas, elas n\u00e3o est\u00e3o no campo de violadoras de Direitos Humanos, ao passo que o Estado est\u00e3o. Isso conduz todo o sistema do Direito Internacional dos Direitos Humanos atualmente. Uma vez que a empresa n\u00e3o \u00e9 violadora, a sua atividade gera impacto, risco ou abuso, mas n\u00e3o viola\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse posicionamento dentro do Direito Internacional estabelece alguns desafios, porque defensores de Direitos Humanos que monitoram a atividade dessas empresas continuam evidenciando um desequil\u00edbrio de poder muito grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o delas nos territ\u00f3rios. Nesse desequil\u00edbrio muitas vezes se evidencia que empresas s\u00e3o mais poderosas do que os pr\u00f3prios Estados, logo, elas t\u00eam uma atua\u00e7\u00e3o nesses territ\u00f3rios que diversas vezes cerceia a pr\u00f3pria atividade estatal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em v\u00e1rios casos, um campo de normas que deveria ser aplicado dentro de um determinado espa\u00e7o territorial, buscando proteger os Direitos Humanos, n\u00e3o \u00e9 aplicado com o objetivo de beneficiar as empresas. Isso ocorre desde isen\u00e7\u00f5es fiscais, at\u00e9 algumas normas como, por exemplo, normas de licenciamento ambiental. Estas n\u00e3o s\u00e3o aplicadas, mesmo que haja no territ\u00f3rio um conjunto normativo interessante em mat\u00e9ria de prote\u00e7\u00e3o ambiental, favorecendo a empresa. Alguns autores chamam esse processo de Race to the Bottom.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Race<\/strong> <strong>to the Bottom<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Primeiramente, as empresas pressionam os Estados buscando vantagens competitivas no momento em que v\u00e3o se instalar nos territ\u00f3rios. O Estado que oferecer menos normas constrangedoras ou condicionantes da atividade empresarial v\u00e3o se tornar terreno mais prop\u00edcio para a sua instala\u00e7\u00e3o. Esse movimento \u00e9 chamado de <\/span><b>Race to the Bottom<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, ou <\/span><b>corrida para o fundo do po\u00e7o<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, quer dizer, o Estado que rebaixar mais as condicionantes, suas normas de Direitos Humanos, torna-se o terreno mais atraente para um investimento externo, um investimento direto ou para implementa\u00e7\u00e3o de\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">empreendimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dentro da l\u00f3gica dos Princ\u00edpios Orientadores sobre empresas e Direitos Humanos, existe a tr\u00edade:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><b>Proteger:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> fun\u00e7\u00e3o que cabe apenas ao Estado<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><b>Respeitar:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> fun\u00e7\u00e3o da empresa\u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><b>Remediar:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> fun\u00e7\u00e3o exercida por ambas as partes<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso faz com que as empresas transnacionais se beneficiem de um terreno de <\/span><b>impunidade<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, uma regi\u00e3o que ainda requer algum tipo de enfrentamento por regulamenta\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o s\u00f3 nacional, mas tamb\u00e9m internacional. Geralmente, as normas nacionais n\u00e3o v\u00e3o dar conta desse enfrentamento, pois o pr\u00f3prio Estado \u00e9 c\u00famplice ou consciente do campo de excepcionalidade de exce\u00e7\u00e3o criado para atrair o investimento estrangeiro e empresas para o seu territ\u00f3rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A concentra\u00e7\u00e3o da responsabilidade apenas no Estado se mant\u00e9m um paradigma a ser enfrentado. Se estabelecermos a din\u00e2mica ligada aos Princ\u00edpios Orientadores, o Estado que n\u00e3o conseguir estabelecer algum tipo de resist\u00eancia estar\u00e1 mais prop\u00edcio a receber uma empresa violadora dos Direitos Humanos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra quest\u00e3o observada sobre os Princ\u00edpios Orientadores \u00e9 que a empresa \u00e9 remunerada ou premiada quando cumpre com os Direitos Humanos, j\u00e1 que o cumprimento dos Direitos Humanos \u00e9 volunt\u00e1rio. Esse processo de atribui\u00e7\u00e3o de premia\u00e7\u00f5es e de selos gera o culto \u00e0 imagem da empresa, utilizando-se de algo que deveria ser uma obriga\u00e7\u00e3o da empresa, mas n\u00e3o \u00e9. Al\u00e9m disso, \u00e9 refor\u00e7ada tamb\u00e9m uma din\u00e2mica de propaganda e marketing positivo para este ator, que torna dif\u00edcil a desconstru\u00e7\u00e3o de sua imagem no caso dela ser uma poss\u00edvel violadora de Direitos Humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">V\u00e1rios instrumentos tentam regulamentar os princ\u00edpios orientadores no campo nacional, estabelecem linhas das ISOS, das premia\u00e7\u00f5es, dos selos, as quais servem como instrumento de propaganda para consolidar uma imagem positiva com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 empresa frente \u00e0 sociedade, sendo muito dif\u00edcil depois de se desconfigurar.<\/span><\/p>\n<h2><strong>Controv\u00e9rsia em torno da Due Diligence<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um ponto importante est\u00e1 presente no princ\u00edpio 17, do rol dos Princ\u00edpios Orientadores sobre empresas e Direitos Humanos, conhecido como Due Diligence, ou devida dilig\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Visto que uma empresa pode gerar impactos, abusos ou promover alguns riscos &#8211; os quais seriam supostamente naturais e que dever\u00edamos suportar, pois s\u00e3o inevit\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o ao desempenho da atividade econ\u00f4mica -, ela n\u00e3o \u00e9 uma violadora, uma r\u00e9, n\u00e3o est\u00e1 sob suspeita quanto \u00e0 sua conduta \u00e9tica efetiva. Portanto, ela pode participar do processo de planejamento ditando as regras relacionadas ao desempenho das suas atividades, como tamb\u00e9m ter\u00e1 a incumb\u00eancia, estabelecida nos princ\u00edpios orientadores, de monitorar a sua pr\u00f3pria conduta. Ou seja, toda informa\u00e7\u00e3o passada \u00e0 sociedade, assim como para o Estado, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conduta da empresa, ser\u00e1 fornecida pela pr\u00f3pria empresa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Partindo deste princ\u00edpio, n\u00f3s dever\u00edamos, supostamente, identificar a empresa como um ator de conduta ilibada, que norteia as suas decis\u00f5es com base na sua boa f\u00e9, mas, na realidade, \u00e9 preciso admitir que h\u00e1 interesses conflitantes. Como \u00e9 poss\u00edvel que a pr\u00f3pria provedora de uma viola\u00e7\u00e3o forne\u00e7a informa\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o ao desenrolar da sua atividade na inten\u00e7\u00e3o de proteger a comunidade atingida?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Observamos, por exemplo, no rompimento da Barragem de Fund\u00e3o, em 2015 e no caso do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, em Brumadinho, em 2019, as falhas do princ\u00edpio de devida dilig\u00eancia. Nos dois casos, a empresa estabeleceu todas as informa\u00e7\u00f5es que serviam de subs\u00eddio para o monitoramento da sua atividade, assim como o diagn\u00f3stico de risco que aquele empreendimento poderia representar.\u00a0 Al\u00e9m disso, logo ap\u00f3s o rompimento da Barragem de Fund\u00e3o em Mariana, vimos sendo veiculado nos meios de comunica\u00e7\u00e3o local, a declara\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Samarco dizendo que as \u00e1guas do Rio Doce estavam aptas para consumo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos dois casos, era a empresa que estabelecia todas as informa\u00e7\u00f5es que serviam de subs\u00eddio para o monitoramento da sua atividade, para o diagn\u00f3stico de risco que aquele empreendimento poderia representar. Como a pr\u00f3pria empresa, que est\u00e1 sendo acusada de gerar aquele dano, \u00e9 respons\u00e1vel tamb\u00e9m por fornecer as informa\u00e7\u00f5es sobre o ocorrido? N\u00f3s, do Homa, acreditamos que o processo do automonitoramento, a l\u00f3gica estabelecida dentro dos Princ\u00edpios Orientadores, \u00e9 um elemento estrutural que viabiliza a impunidade empresarial.<\/span><\/p>\n<h2><strong>Falta de um instrumento vinculante<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro elemento que est\u00e1 dentro da estrutura l\u00f3gica dos Princ\u00edpios Orientadores \u00e9 a n\u00e3o exist\u00eancia de um rol de obriga\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos atribu\u00eddos efetivamente para as empresas, assim como n\u00e3o h\u00e1 reconhecimento claro da responsabilidade civil, penal e administrativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Empresa. No caso da atividade criminal e penal, parte da nossa legisla\u00e7\u00e3o brasileira possui o reconhecimento, mas em outros Estados, representando uma lacuna. Por esse motivo, h\u00e1 a necessidade da negocia\u00e7\u00e3o do tratado sobre empresas e Direitos Humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m \u00e9 preciso ressaltar que se observarmos as atividade das empresas transnacionais, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel identificar mecanismos que prevejam no processo a <\/span><b>coopera\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">,<\/span><b> mecanismos de extraterritorialidade<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><b>reconhecimento de jurisdi\u00e7\u00e3o extraterritorial <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">no\u00a0 campo estruturante dos Princ\u00edpios Orientadores. Por exemplo, a negativa da aplica\u00e7\u00e3o do <\/span><b>forum non conveniens<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> com crit\u00e9rios de <\/span><b>forum necessitatis<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><b>forum non conveniens:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 uma doutrina jur\u00eddica de direito comum em que um tribunal reconhece que outro f\u00f3rum ou tribunal \u00e9 mais apropriado e envia o caso para este f\u00f3rum, geralmente para a jurisdi\u00e7\u00e3o em que ocorreu o acidente e onde todas as testemunhas residem.<\/span><br \/>\n<b>forum necessitatis:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 o princ\u00edpio que garante o acesso \u00e0 justi\u00e7a dos envolvidos no processo.\u00a0<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Propomos aqui a leitura do documento sobre o caso <\/span><a href=\"http:\/\/homacdhe.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Chevron-Diagramado-BR.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">Chevron Texaco<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, onde analisamos a circunst\u00e2ncia e dificuldade de se homologar senten\u00e7as estrangeiras com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tentativa de se dar a devida repara\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00edtima por viola\u00e7\u00f5es cometidas por empresas transnacionais em outros territ\u00f3rios.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando seguimento \u00e0 s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es sobre aspectos gerais de Direitos Humanos e Empresas, no post de hoje vamos entender agora o papel dos Princ\u00edpios Orientadores em rela\u00e7\u00e3o ao tema de Empresas e Direitos Humanos. 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